sábado, 3 de dezembro de 2011

Um disparo, dois tiros

Ela levantou, mas não acordou. O corpo ficou na cama bagunçada, a cabeça sobre os volumes macios que sempre deixavam uma dor leve no pescoço, pela manhã. Hoje, ela acordou sem dor. Sem vontade, sem rumo, sem si. Ela deixou a um canto a camisola lilás, girou de leve a maçaneta e acariciou repetidamente o chão do corredor com os pés pequenos. Ela sequer olhou para trás, sabia que o destino era adiante. 

Agora ela era como sempre quisera ser, só sensações. Sentiu bem mais o aroma meio acre do cajueiro em flor, do asfalto quente sob o sol do início da manhã e da fumaça dos carros. O cenário era bonito, porque era real, sincero e tinha gente. Ela sempre gostou de gente, embora nunca tenha se sentido muito bem entre elas. Elas funcionavam como a TV para seus usos e satisfações; eram só companhia para um momento de solidão. No caso dela, o momento durou a vida inteira. Até que as pessoas serviram bem. 

Agora ela notava como sempre fora irrelevante para todos e agradecia em pensamento não estar mais presa a nada disso e não ter nada preso a ela. Já não precisava amarrar o grande sorriso no rosto, tão grande que escondia lágrimas eventuais. Ela lembrou que guardava o sorriso entre as páginas dos livros que lia, antes de dormir. Durante a noite, eram os romances que recarregavam seus dentes e lábios unidos fixos em felicidade para a manhã seguinte. 

Caminhou por mais um longo tempo, aproveitando a sensação de ser vista por ninguém. Desamarrou a corda do cachorro preso ao poste, cuspiu do alto e fez chover, roubou o pudor da gente fraca e mostrou a todos que quando alguém vai e não olha pra trás, não adiantam mais as palavras bonitas. Ela sentia, mas não ouvia mais nada. Nem os ganidos chorosos nem as buzinas alucinadas. Ela era toda paz. 

A noite chegou e ela se sentou no concreto frio, observando a movimentação diminuir, como a água que se esvai. Abraçou os joelhos e começou a pensar que aquilo também não fazia sentido. Não sabia o que era pior. Estar sozinha junto de muitos ou ter a companhia dos mil pensamentos, realistas demais. 

Levantou e sentiu que ia chorar, não havia saída. Não importava o quanto andasse, sempre havia mais uma esquina. Ironia cruel levando em conta a provinciana dimensão da cidadezinha. Ela caminhou até que algo a fez parar. Um olhar a atravessou no peito. Ela sabia que aquela não era a dor de não ser vista, porque já estava acostumada. Sentiu como um tiro, a sensação já conhecida. Um impacto que deixou os instantes seguintes em câmera lenta. Quente e molhado, só que agora no peito, não na têmpora. Dessa vez o calor aquecia, não queimava. Por um momento ela pensou que pudesse estar ouvindo um som ritmado e grave, profundo, como se latejasse. Mas ela realmente não podia ouvir, vinha de dentro do peito. E ela foi caindo, devagar, primeiro joelho fraquejando, depois outro, e o cheiro doce e rubro coloria a noite. Era visceral. 

O olhar caminhou até ela, trazendo um homem. Ele dizia coisas que ela não podia ouvir, mas quem se importava, agora? Ele podia e queria vê-la. Ela sentia o impacto de ser fuzilada a cada novo toque. Se contorceu em angústia e aquilo tudo parecia um sonho ruim dentro de um outro sonho ruim, abriu a boca e nenhum som saiu. Os os marejaram, embaçaram, reviraram e ela apagou. 

Acordou com o som que parecia vir de dentro, vindo de fora. A cabeça doía, o pescoço também. O ouvido estava grudado na caixa de coração que tinha cheiro de homem, de meia noite e de roupa nenhuma cobrindo corpos. Ele ressonava e ela assistia, sentindo o peito atravessado por alguma coisa que não se podia dizer o que era. Só era quente. Parecia vir de longe e ela nunca iria poder dizer como fora atingida. Ela pra sempre só irá lembrar de um disparo. 

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